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segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Mendigo da Praça da Alfândega - Capítulo I


Sophia, minha mulher, planeja por em prática alguns planos. É arquiteta, está sempre planejando algo. Eu, que parei de estudar quando peguei a primeira cadeira de cálculo na faculdade de química, contento-me em conseguir manter meu emprego de supervisor numa empresa privada de auditoria. Monitoro as falhas de quem procura falhas alheias. Sempre envolto em pilhas de pastas e rodeado por arquivos em uma sala três por três, às vezes me pergunto se esta é realmente a vida que imaginei ter quando criança. Sonhava em ser astronauta, ou cientista, ou qualquer outra coisa que não isso. Seria esse o destino que futuro me reservara, desde que nasci?

Acabaram-se os dias de vadiagem por culpa exclusiva da seleção, ainda que eu nem assistisse com muito afinco aqueles jogos. Como ainda era sexta-feira, alguma coisa poderia ser feita para melhorar ao menos meu final de semana. Sophia disse que iria preparar um prato especial para a janta, tentando sossegar minha aparente tristeza, apesar da apatia que eu tentava transparecer. Ela sabia que não era pela derrota no futebol que eu estava triste, ou pelos dias a mais que precocemente haveria de trabalhar, mas pela minha derrota na vida, os planos aleijados. Ela bem conhecia aquele meu olhar. Convidou seu amigo e subchefe Filipe e a esposa, cujo nome não me recordo, para um jantar a quatro. Não sei bem se para me alegrar ou para motivar, pois Filipe era um alto executivo do ramo imobiliário, cheio da grana, bem vestido, cheiroso e boa praça; ela, uma madame socialite cheia de apliques e silicones que esbanjava o dinheiro do marido. Como competir com aquele carro importado sendo o meu um popular financiado em perpétuas prestações?


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